O seu passatempo preferido : caçar caracóis. A palavra “caçar” não se atribuía a mais do que capturá-los e deixá-los se movimentando no zoológico improvisado. O seu zoológico tratava-se de uma pedra de tamanho consideravelmente grande, trazida de uma das pesquisas do pai arqueólogo , bastante ausente por conta do trabalho.
Os vestidos da menina de cabelos ruivos ficavam diariamente manchados com a lama amarronzada do jardim, a mesma que envolvia as folhas com as quais alimentava os seus pequenos. “Meus Pequenos”. Ela já reconhecera direitinho quem era quem. Mesmo não lhes doando nomes nem numerações, sabia quando algum deles sumia do quintal florido, ou quando um novo visitante aparecia.
Freqüentava aulas de piano. Chegava oito e quinze em casa, correndo até o quintal para procurar os rastejantes. A ruivinha estudava sobre eles. Aprendeu que os seus hábitos eram noturnos , a composição estranha do corpo , que está formada por 90% de água. 90%. Quer dizer que eles precisam de um ambiente úmido sempre.Mas isso não era problema, procurava espalhar lama molhada aos arredores da pedra, a cobria com a sombra criada pelas plantas maiores , para que o sol da tarde não a aquecesse, e espalhava pétalas de flores rosas e brancas para que tivessem um alimento mais variado .
Ela simplesmente adorava tudo aquilo, e era o seu segredo. Sua mãe sempre lhe perguntara o que fazia no fundo do quintal , e como uma dona de casa ocupada, ignorava o silêncio da filha e continuava com os afazeres caseiros enquanto escutava o rádio , sem insistir na pergunta. Adultos quando realmente querem saber, sabem , mas na maioria das vezes fazem questionamentos por educação, ou da boca pra fora, para demonstrar um certo interesse, senão fica feio .
Chegou meados de junho e o inverno se manifestava. Oito e quinze a menina correu com o seu vestido vermelho balançando, fazendo o seu cabelo alaranjado se destacar . Mas, cadê meu zoológico ? Cadê a lama que tava no potinho? Cadê ? ... Cadê ? Cadê meus pequenos ? Um longo choro se calou na garganta da menina. O que vira era demais para ela. Procurou dizer alguma coisa mas não conseguiu. A mãe a viu de longe, enquanto tirava do varal os vestidos secos e livres de lama.
Observou a filha petrificada.
- Finalmente vieram me ajudar . Fiz uma limpeza no quintal para que entrara o sol agora , no inverno. Você acredita que encontramos uma invasão de caracóis ? Uma praga. Fiquei com tanto nojo que tive que pedir ajuda ao vizinho. Aqueles pequenos estavam acabando com as minhas flores . ”
Uma ânsia de palavras subiu à boca da menina , mas mergulhou em sua angústia e não disse nada. Correu para o banheiro que ficava na parte de cima da casa . Afundou-se em suas tristezas. Afundou-se em seus inúmeros pensamentos.
Cada vez que a menina chegava em casa, largava a apostila musical em cima da mesa e sentava frente à televisão. Seus vestidos já não eram pendurados com freqüência no varal. Sua mãe nunca mais teve que esfregar uma mancha de lama .
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